Síndrome do pânico: como tratar de forma integrativa

Por Equipe Keyo

Síndrome do Pânico: A medicina integrativa tem uma longa história. Durante muito tempo as abordagens médicas foram divididas entre as convencionais e as chamadas alternativas. O termo sugere que se deveria escolher entre uma e outra, como se fossem inimigas, o que não é nem verdadeiro, nem útil.

Com o tempo, as abordagens alternativas começaram a ser chamadas de complementares. O termo então passou a indicar que as outras formas de tratamento não convencionais complementariam o tratamento convencional. A denominação estava melhorando, mas ainda não refletia o que estava prestes a acontecer.

E o que aconteceu foi que as abordagens não convencionais passaram a ser estudadas com rigor técnico e metodologia científica, o que aumentou sua segurança e garantia de eficácia. Aí então começaram a ser denominadas de medicina integrativa, já que literalmente integram a medicina convencional com outras formas de tratamento.

E é nesse momento que nos encontramos. Neste artigo, esse conceito será aplicado num transtorno psiquiátrico bastante comum, a síndrome do pânico (SP).

Etiologia e tratamento

Existem muitas teorias sobre a origem da SP e uma que me parece mais promissora e prática é a que diz ser o transtorno decorrente de uma mudança no sistema de alarme a perigos do cérebro, no sensor de situações ameaçadoras.

A síndrome do pânico afeta aproximadamente entre 2% a 4% da população mundial e tem um pico entre os 20 e 24 anos. Normalmente acomete pessoas sempre acima dos 14 anos, sendo bastante rara na terceira idade.

Cada crise de pânico atinge seu máximo rapidamente, digamos em dois ou três minutos, e dura entre 10 e 30 minutos. A maioria das crises tem duração de, no máximo, 15 a 20 minutos, não mais que isso.

Mais ou menos quatro em cada 10 pessoas que sofrem do problema podem ter essa crise durante o sono, o que também é muito assustador.

Ela tem ainda um potencial de ser acompanhada de outros transtornos psiquiátricos, como a depressão, a ansiedade generalizada e as fobias e até mesmo com dependência química, já que pode ocorrer um aumento do consumo de álcool para tentar aliviar os sintomas.

A síndrome do pânico compromete de maneira bastante séria a vida social, a vida profissional e de relacionamentos afetivos, levando, com frequência, ao que chamamos de desabilitação, com perda importante da qualidade de vida, autonomia e capacidade de traçar seu próprio caminho.

Sem tratamento adequado, dificilmente a SP evolui de maneira satisfatória, há poucas expectativas de cura espontânea.

O tratamento alopático convencional é realizado principalmente com inibidores seletivos de recaptação de serotonina (IRSS), com resultados excelentes!

Algumas medidas não alopáticas podem ser utilizadas de modo conjunto, de modo harmônico, integrado.

A primeira medida é o uso de substâncias não alopáticas.

E a segunda medida são algumas mudanças nos hábitos de comportamento e pensamento. Dentre elas, a mais fácil e eficaz talvez seja a respiração controlada.

Substâncias não alopáticas

Existem substâncias não alopáticas que podem ser utilizadas na abordagem integrativa da SP. Esses medicamentos têm a grande vantagem de auxiliar o tratamento e especialmente de reduzir a necessidade dos diazepínicos.

Um primeiro grupo que é muito promissor são alguns fitoterápicos. As plantas medicinais são utilizadas há milênios pelos seres humanos e sua aplicação parte do seguinte princípio: as plantas, quando enfrentam o meio ambiente, são obrigadas a fabricar certas substâncias para se defender de agressores, que podem ser muito úteis aos seres humanos.

Repito que dificilmente os fitoterápicos sozinhos consmaior parte das vezes eles atuam de maneira complementar, mas têm uma utilidade fantástica. Exemplos de fitoterápicos que podem ser úteis, e que merecem mais estudos no tratamento da SP, incluem a Valeriana, a Angelica sinensis ou o Piper methyscum.

Os fitoterápicos muitas vezes são utilizados pelos médicos na forma de extrato seco, sendo que as iniciais ES podem aparecer ao lado do medicamento. Essa é uma indicação de que a erva tem uma dosagem padronizada de substâncias ativas. Em outras formas de apresentação, como a infusão (“chá”), podem ocorrer variações na quantidade das substâncias com atividade efetiva, o que dificulta o tratamento.

Os fitoterápicos costumam ser usados em associação, não isoladamente. O objetivo é fazer uma somatória dessas substâncias, provocar uma sinergia, um aumento da ação que eles têm.

Ainda quanto à fitoterapia, é importante destacar que a erva de São João, o Hypericum perforatum, é de venda livre e algumas pessoas podem decidir comprar e fazer uso desse fitoterápico sem prescrição médica.

Quem está em tratamento do transtorno de pânico pode ter problemas fazendo isso. Os inibidores de recaptação de serotonina são eliminados pelo fígado em uma rota de desintoxicação. O Hypericum perforatum, a erva de São João, também é eliminado por essa via. Ele utiliza a mesma rota e assim concorre com os IRSS alterando seus níveis plasmáticos e a disponibilidade dessa droga para o cérebro, o que pode provocar efeitos bastante indesejáveis.

De maneira geral, não é recomendável que o paciente use a erva de São João junto com inibidores de recaptação de serotonina, a menos, é claro, que o seu médico diga que é possível utilizar.

Na verdade, todos esses fitoterápicos devem ser usados sobre supervisão médica. Não é porque alguma coisa é natural, uma simples erva, que pode ser tomada livremente. Ela não é um chazinho depois da refeição, pode ter efeitos muito sérios e é sempre importante que o seu uso seja seguido por um profissional.

Outro grupo inclui medicamentos formados por diluições sucessivas, ou seja, que são ultradiluídos. A forma mais conhecida de medicamentos diluídos é a homeopatia, mas existem medicamentos que se valem da ultradiluição e não seguem as normas de prescrição da homeopatia tradicional.

Existem alguns estudos bastante promissores também sobre a utilização concomitante do ômega 3, que é um óleo em geral extraído de peixes do mar de águas profundas. A justificativa para seu uso é a inflamação generalizada. O que é isso? Se eu cortar o meu dedo, vai ocorre uma reação inflamatória localizada, que é muito boa, muito útil para resolver a situação. Os glóbulos brancos vão até o local do corte, o processo de cicatrização acontece, o corte cicatriza e o organismo se recupera.

Mas existem algumas situações em que é como se o corpo não soubesse, por assim dizer, o que está acontecendo e ele inflama como um todo, incluindo o cérebro. Essa é a inflamação generalizada, que pode piorar praticamente qualquer doença, inclusive a síndrome do pânico.

Existem alimentos que pioram essa inflamação e alimentos que dificultam essa inflamação generalizada. Um dos alimentos que dificultam a inflamação indesejada são os peixes que contêm ômega 3. Por isso existem estudos, ainda em andamento, mas que são bem promissores sobre a utilização concomitante, nunca como tratamento principal, desse óleo no transtorno de pânico e em outras doenças.

Uma outra linha de investigação com boas perspectivas, mas que também dificilmente vai ocupar o lugar principal no tratamento do pânico, é relacionada à biota intestinal.

Os microrganismos que compõem a biota intestinal estão conosco há milênios e influenciam todo o funcionamento do nosso corpo, inclusive o cérebro. Não é à toa que o intestino foi chamado de “segundo cérebro”. Várias experiências científicas estão comprovando que existem certos grupos de bacilos intestinais que modificam o comportamento, favorecendo o funcionamento do cérebro ou dificultando o funcionamento desse mesmo cérebro. Então estão sendo conduzidas várias pesquisas no sentido de verificar se a mudança na flora intestinal, na biota intestinal, poderia favorecer o funcionamento do cérebro e dificultar os sintomas do pânico.

É possível também que a intolerância a certos grupos de alimentos tenha influência no comportamento. Essa é uma nova abordagem muito promissora em medicina integrativa: pesquisar eventuais intolerâncias alimentares, porque elas podem estar influenciando o cérebro.

Respiração controlada

Uma das medidas mais eficazes na abordagem da síndrome do pânico é a respiração controlada.

É uma técnica típica de medicina integrativa, mas se mostrou tão eficaz que já foi incorporada e é utilizada por médicos alopatas, tradicionais.

Durante uma crise de pânico, a respiração, sem que a pessoa perceba, está alterada.

Essa modificação provoca mudanças na química do sangue, fazendo com que ele se torne mais alcalino. Essa alteração, sozinha, facilita o aparecimento de novas crises e ajuda a desregular mais ainda o cérebro.

Ao mesmo tempo, uma respiração muito acelerada é mais superficial. O diafragma, quando distendido, provoca uma reação, ou melhor dizendo, uma contrarreação ao pânico, estimulando o sistema parassimpático, que também é capaz de reduzir a intensidade das crises de pânico.

Existem vários métodos de respiração controlada. O método mais fácil é a respiração chamada “2-1-4”. Significa que o paciente irá inspirar pelo nariz lentamente durante cerca de dois segundos, segurar o ar dentro dos pulmões por aproximadamente um segundo e colocar o ar para fora lentamente pelo nariz por cerca de quatro segundos, ou seus múltiplos.

Existem pessoas que se incomodam em contar esse tempo. Não há grandes impedimentos quanto a não fazer isso, desde que o ar saia com o dobro do tempo do que entrou.

Essa respiração pode ser praticada diversas vezes durante o dia. Ainda tem a vantagem de poder ser realizada por pouco tempo. Ela já começa a funcionar aos 30 segundos, sendo que o ideal é realizá-la ao menos durante um minuto e meio.

Junto com essa respiração é possível incluir algumas imagens mentais. Cada pessoa deve descobrir o seu cenário predileto. Não existe um cenário ideal para todo mundo. Pode ser um lugar muito confortável como uma praia, um passeio no campo ou também um lugar muito seguro. É ainda possível imaginar que se está num local muito bonito e calmo, coberto por uma bolha e que nada de mal pode atingi-lo. A sensação de segurança é o que vai interessar.

Outra alternativa é fazer a respiração e lembrar de momentos agradáveis da vida, especialmente daqueles em que a pessoa se sentia totalmente amparada, totalmente segura.

É imprescindível que a respiração seja treinada fora das crises. Assim como ninguém aprende a nadar enquanto está se afogando, não é ideal utilizar a respiração controlada apenas nas crises.

Objetivos

Os conceitos de medicina integrativa aplicados na síndrome do pânico buscam harmonizar a mente e o corpo com quatro grandes objetivos.

Primeiro: reduzir a quantidade de crises, para que elas ocorram em número bem menor do que estão acontecendo.

Segundo: que a intensidade dessas crises seja muito, muito menor do que a que o paciente vem conhecendo.

Terceiro: que o intervalo de tempo entre essas crises seja cada vez mais espaçado.

Quarto: que a intensidade dos sintomas seja cada vez menor.

O objetivo mais amplo é diminuir as chances de desabilitação social, reduzir a probabilidade de que a pessoa comece a se isolar, com vida social cada vez mais restrita.

E que ela possa recuperar a sua capacidade plena do ponto de vista emocional, biológico e social.


Dr. Cyro Masci – Médico psiquiatra em São Paulo/SP, atuando em clínica privada com abordagem integrativa. Artigo baseado no e-book Síndrome do Pânico: psiquiatria com abordagem integrativa, do autor